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3.9 Modulação

Modular é mudar de tonalidade no decorrer de uma peça. Não se trata de uma alteração passageira, como a que uma dominante secundária provoca, mas de uma mudança de centro: a partir de certo ponto é outra nota que funciona como tónica, e é para ela que todos os graus passam a ser atraídos.

O caminho mais direto é introduzir a dominante da tonalidade de chegada. Como essa dominante quase sempre contém notas estranhas à tonalidade de partida, é a própria alteração cromática que anuncia a mudança: o ouvido reconhece a tensão e espera a resolução na nova tónica.

I G: D: IV V 6 / V I V 6

Figura 3.9.1. Modulação de Sol Maior para Ré Maior. O terceiro acorde é Lá Maior, que na tonalidade de partida não é diatónico — em Sol, o segundo grau é menor — mas que funciona como dominante de Ré e conduz à nova tónica. A análise lê-o das duas maneiras.LilyPond · AAC · MP3

Repare-se no dó sustenido do baixo: é a única nota alterada de toda a passagem, e é ela que transforma um acorde de Lá menor, que pertenceria a Sol Maior, num acorde de Lá Maior, que pertence a Ré. Uma alteração basta para mudar de tonalidade.

A forma mais suave é através de um acorde pivô, ou seja, um acorde que pertence às duas tonalidades ao mesmo tempo, sem necessitar de qualquer alteração. Enquanto soa, o ouvinte ainda o lê na tonalidade de partida; só o que vem a seguir revela que, afinal, ele já pertencia à tonalidade de chegada. É por isso que a análise funcional destas passagens se escreve em duas linhas: a de cima interpreta o acorde na tonalidade que termina, a de baixo na que começa.

ii 6 G: C: I 6 V I V I

Figura 3.9.2. Modulação de Sol Maior para Dó Maior. O acorde de Sol é o primeiro grau da tonalidade de partida e o quinto da tonalidade de chegada, servindo de charneira entre as duas.LilyPond · AAC · MP3

Quanto mais notas as duas tonalidades partilharem, mais suave é a passagem. Tonalidades vizinhas no ciclo de quintas, que diferem entre si numa única alteração, oferecem vários acordes pivô e permitem modulações que quase não se dão a notar.

Convém distinguir a modulação da simples alteração cromática. Se as notas estranhas à tonalidade aparecem e desaparecem sem que o centro se desloque, não houve modulação: houve cor. Só quando uma nova tónica se estabelece, e é confirmada por uma cadência, é que a peça mudou efetivamente de tonalidade.

Teoria Musical, um projeto de Marco Ferra

Código sob MITTexto, partituras e gravações sob CC BY-SA 4.02017–2026