2.1 Série harmónica
Uma nota musical apenas, do ponto de vista científico e artístico, encerra nela própria tantos assuntos diferentes que, fazendo apenas uma análise das suas características intrínsecas, daria material suficiente para escrever vários livros. Com o objetivo de tornar o leitor um músico mais versado, apresenta-se, do ponto de vista científico, qual a natureza de uma nota musical, nomeadamente o seu conteúdo harmónico.
Embora o tema dos harmónicos, do ponto de vista físico, musical e sensorial, seja complexo e simultaneamente entusiasmante, é objetivo deste capítulo proporcionar uma visão geral do mesmo, sem ser demasiado teórico, mas claro o suficiente para que o leitor possa ter uma visão mais alargada sobre o tema.
Como visto anteriormente, o timbre, do ponto de vista musical, é o atributo que nos permite distinguir as características, ou as assinaturas acústicas, dos vários instrumentos. É o que nos permite distinguir a mesma nota tocada por uma flauta ou por um saxofone. Do ponto de vista físico, o timbre é um sinal acústico complexo, formado pela sobreposição simultânea de várias ondas sonoras mais simples, com diferentes frequências e amplitudes, que no seu conjunto conferem uma assinatura única e característica de um determinado instrumento ou nota musical. Esta assinatura acústica é também afetada pelo próprio músico, dependendo do ataque, da intensidade, ou do modo com que aborda fisicamente o instrumento. Diferentes músicos, com diferentes técnicas e diferentes sensibilidades, irão obter do mesmo instrumento diferentes sonoridades.
Como o sinal acústico de uma nota musical é um sinal complexo, quando um pianista toca a nota [A] na 4.ª oitava (A4), o sinal acústico que ouve não contém apenas a frequência fundamental do A4 (f0 = 440 Hz). Se assim fosse, o som soaria essencialmente a um apito. Existe um conjunto mais vasto de outras frequências com diferentes intensidades que fazem com que a nota A4 tocada num piano seja reconhecida, pelos seres humanos, como um A4 tocado efetivamente num piano, e não noutro instrumento.
Do ponto de vista prático, talvez a ferramenta científica mais adequada para se analisar a assinatura acústica de uma nota tocada num instrumento musical seja a transformada discreta de Fourier, ou «DFT — Discrete Fourier Transform». O objetivo desta transformação é passar a informação que existe no domínio do tempo para informação no domínio da frequência, o que permite analisar a componente harmónica existente numa nota musical. Em inglês este conteúdo harmónico é denominado de «Harmonic Series» ou «Overtone Series».
O gráfico de cima segue cada harmónico separadamente: o eixo horizontal é o tempo decorrido, o vertical a amplitude em dB relativamente ao harmónico mais forte, e cada curva corresponde a um dos harmónicos identificados no gráfico de baixo.
Verifica-se que os harmónicos mais graves perduram mais no tempo e são mais intensos, e que à medida que se sobe na série estes perduram cada vez menos tempo e são cada vez menos intensos, até se extinguirem por completo. Ao fim de um segundo já quase só resta a fundamental e os dois harmónicos que se lhe seguem. É esta a razão pela qual uma nota, ao decair, vai perdendo brilho antes de perder volume: não é o volume que desaparece primeiro, são os harmónicos agudos.
Para se estudar melhor o conteúdo da série harmónica, retira-se a variável tempo decorrido e, no gráfico de baixo, apresenta-se no eixo horizontal o conjunto de frequências analisadas e no eixo vertical a amplitude de cada uma delas, em dB relativamente ao harmónico mais forte.
É possível ver, claramente, a existência de picos em determinadas frequências. Fazendo corresponder a cada uma dessas frequências a nota musical que lhe está mais próxima, verifica-se que o A4 a 440 Hz é a frequência mais forte (f0, a frequência fundamental), mas que existem outras notas, de intensidade inferior, mas relevantes, presentes nesta nota:
| Ordem | Nota | Frequência | Amplitude | Intervalo relativamente a A4 |
|---|---|---|---|---|
| 1× | A4 | 441 Hz | 0 dB | uníssono (fundamental) |
| 2× | A5 | 883 Hz | −9 dB | 8.ª perfeita |
| 3× | E6 | 1327 Hz | −9 dB | 5.ª perfeita |
| 4× | A6 | 1774 Hz | −28 dB | 8.ª perfeita |
| 5× | C#7 | 2225 Hz | −26 dB | 3.ª maior |
| 6× | E7 | 2681 Hz | −29 dB | 5.ª perfeita |
| 7× | G7 | 3142 Hz | −34 dB | 7.ª menor |
| 8× | A7 | 3611 Hz | −36 dB | 8.ª perfeita |
As notas que se encontram dentro do A4 são, portanto, [A4, A5, E6, A6, C#7, E7, G7], e formam com o A4 intervalos maioritariamente consoantes. Repare-se que empilhando a fundamental com o 3.º, 5.º e 7.º harmónicos se obtêm as notas [A, C#, E, G]: um acorde de sétima da dominante. A harmonia que estudaremos no capítulo seguinte já se encontra, por inteiro, dentro de uma única nota de piano.
Sublinha-se o facto de que em todos os gráficos a amplitude é apresentada em dB (decibel). Esta é uma escala logarítmica: um decréscimo de 10 dB corresponde a uma potência dez vezes menor. Considerando que o ouvido humano ouvisse as amplitudes de quaisquer frequências do mesmo modo — o que também não é inteiramente correto, pois o ouvido humano é mais sensível a certas frequências — a diferença entre a amplitude do harmónico E6 (−9 dB) e a do G7 (−34 dB) é de 25 dB, ou seja, o G7 tem uma potência aproximadamente trezentas vezes inferior à do E6.
Repare-se ainda que as frequências dos harmónicos não são múltiplos exatos da fundamental: o 2.º harmónico está a 2,00 vezes a fundamental, mas o 5.º está a 5,05 e o 8.º a 8,19. Esta é a inarmonicidade da corda, uma consequência da sua rigidez física, e é uma das razões pelas quais um piano é afinado com as oitavas ligeiramente esticadas em vez de matematicamente exatas.
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